Impor
uma questão de entendimento
“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.”
Allan Kardec[1]
Qualquer iniciante nos conhecimentos espíritas por meio da leitura das cinco obras básicas, a saber: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e A Gênese - lerá a palavra em epígrafe e poderá assimilá-la, naturalmente, conforme sua formação intelecto-moral.
Outras palavras se encontram a mancheias nos livros da Codificação sendo comumente lidas e entendidas de forma tradicional, isto é, com os significados mais populares ou ainda os que mais marcaram seu desenvolvimento, mormente o moral. Isto porque, no primeiro contato com os textos da Doutrina Espírita, nem sempre nos lembramos de que ela se caracteriza por seus aspectos científicos, filosóficos e suas consequências morais, possuindo terminologia própria; o que nos reporta à necessidade de estudá-la, compreendendo-a através de seus próprios postulados. Assim, a palavra título, à luz da Doutrina Espírita, possui significado específico que difere da compreensão vulgar.
Comum, portanto, que o novato inicie seus estudos com afirmação de conceitos espíritas, mais ou menos equivocados (justamente pela ausência do entendimento no contexto doutrinário) com relação às ideias, à essência embutida nos vocábulos mais comuns. Algo que somente a continuidade do estudo atento, meditado e refletido dos paradigmas espíritas poderá clarear a nuvem que obscurece a letra.
Vale lembrar as palavras de Santo Agostinho[2]:
“Nuvem alguma obscurece a luz verdadeiramente pura;”
Talvez por isso, um, dois, três... conceitos ou princípios espíritas podem ser insuficientes para ampla compreensão das ideias espíritas de maneira a conquistar a fé que pensa e raciocina a partir dos textos kardequianos.
Por este motivo vale entender e atender as orientações de Allan Kardec em relação às palavras, como dos Espíritos que participaram da Codificação, alertaram:
“É uma questão de palavras, com que nada temos. Começai por vos entenderdes mutuamente.”[3]
Frequentemente, há quem afirme que o Mestre lionês e/ou os Espíritos se contradizem e/ou se contradisseram em tal ou qual ponto. Longe de dizer sobre tal possibilidade, afirmo que para cada controvérsia importa lembrar dessa resposta dos Espíritos:
“Não há contradição. Tudo depende das acepções das palavras. Por que não tendes uma palavra para cada coisa?”[4]
E, assim, os Espíritos que responderam às questões apresentadas pelo professor Rivail o orientaram, deixando-nos infinitos ensinamentos para toda a vida.
“Mas isto constitui uma questão de palavras. Chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais.”[5]
Algumas pessoas podem dizer que essas orientações se aplicam às perguntas realizadas não sendo possível generalizá-las. Não é o que nos parece quando nos defrontamos com a seguinte resposta dos Espíritos:
“Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa, conforme o sentido que empresteis às palavras. As maiores verdades estão sujeitas a parecer absurdos, uma vez que se atenda apenas à forma, ou que se considere como realidade a alegoria. Compreendei bem isto e não o esqueçais nunca, pois que se presta a uma aplicação geral.”[6]
E os Espíritos reforçam essa importância das palavras, afirmando:
“Tomai cuidado! Muito vos tendes enganado a respeito dessas palavras, como acerca de outras.[7]
Saber que encontramos essas advertências em toda Codificação e não apenas em O Livro dos Espíritos deve ser, para nós, paradigma aplicado em todo pensamento, em toda ideia, em nossas relações... A compreensão das palavras e sua aplicação na Codificação possibilita-nos uma melhor convivência com os que pensam distintamente.
Importa que ressaltemos um princípio de alto valor para os estudantes da Doutrina Espírita e/ou do Espiritismo, contido em O Livro dos Médiuns:
“Os Espíritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Têm o estilo conciso, sem exclusão da poesia das ideias e das expressões, claro, inteligível a todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão.”[8]
“... cada palavra é empregada com exatidão.”
Outras considerações poderíamos apresentar para justificar em que nos baseamos para destacar a questão das palavras, porém, foge do escopo deste texto, que é buscar elucidar a que nos serve de título.
Impor é o verbete com que nos ocuparemos.
Para os que querem, pensam e trabalham por ser independentes, livres de quaisquer peias, esse vocábulo pode gerar verdadeira repulsa, quando encontrado nos textos doutrinários e dificultar a compreensão dos ensinamentos. Outros motivos também dificultam o entendimento, como os que se encontrem em período de aflições incompreendidas podem, igualmente, esquivar-se da leitura e/ou do estudo ao se verem de frente com certas afirmativas, o que é absolutamente normal, tais quais:
“Passando pelas provas que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento.”[9]
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição.”[10]
É comum que o estudante e/ou o leitor, não consiga aceitar, de pronto, que Deus possa lhe “impor” provas para poder progredir. Todavia, caso persista na leitura e/ou no estudo, poderá compreender melhor a questão da “imposição” com a leitura da seguinte questão:
“Nada ocorre sem a permissão de Deus, porquanto foi Deus quem estabeleceu todas as leis que regem o Universo. Ide agora perguntar por que decretou Ele esta lei e não aquela. Dando ao Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe deixa a inteira responsabilidade de seus atos e das consequências que estes tiverem. Nada lhe estorva o futuro; abertos se lhe acham, assim, o caminho do bem, como o do mal. Se vier a sucumbir, restar-lhe-á a consolação de que nem tudo se lhe acabou e que a bondade divina lhe concede a liberdade de recomeçar o que foi malfeito. Demais, cumpre se distinga o que é obra da vontade de Deus do que o é da do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes vós quem o criou e sim Deus. Vosso, porém, foi o desejo de a ele vos expordes, por haverdes visto nisso um meio de progredirdes, e Deus o permitiu.”[11]
Frisamos apenas a essência para o entendimento deste verbete à luz da Doutrina Espírita e de uma série de outros que muita vez nos passam despercebidos. Um verdadeiro paradigma para nossa compreensão é “Nada ocorre sem a permissão de Deus.”
É, pois, necessário bem entender como a Doutrina nos apresenta Deus para que tudo fique mais claro.
Momentos há que, para maior compreensão, é insuficiente a leitura das questões de O Livro dos Espíritos, sendo necessário ler, estudar e correlacionar os textos das outras obras da codificação, acima citadas.
Procuremos sintetizar alguns pontos que possam facilitar o entendimento da “imposição de Deus”, compreendendo seus atributos e providência.
O primeiro princípio da Doutrina Espírita é a existência de uma inteligência suprema que rege todo o Universo, a causa primária de todas as coisas, que nomeamos como Deus, podendo identificá-lo com outros nomes. Assim, nada existe que não seja criado por Deus ou que não tenha sua permissão. Mas precisamos conhecer os atributos dessa Inteligência Suprema, sem os quais deixaria de ser suprema. São eles: Eternidade, Imutabilidade, Imaterialidade, Unicidade, Onipotência, Justiça e Bondade; Esses precisam ser superlativos, caso contrário não seria Deus.
Estudando, atenciosamente, a Codificação, poderemos concluir com Allan Kardec[12]:
“A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber”
Apesar de muitos leitores e estudantes bem assimilarem esse entendimento, pode ocorrer que, apresentadas as adversidades da vida, alguma interrogação surja, por isso mesmo vale repetir: “Nada ocorre sem a permissão de Deus”.
Lembremos parte das respostas àa questão 262 e 262a de O Livro dos Espíritos, para completar nosso raciocínio:
“Deus supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir...”
“Deus sabe esperar, não apressa a expiação.”
Assim, caso algumas palavras na Doutrina Espírita que pareçam chocar nossa razão, talvez não as tenhamos bem compreendido ou as interpretamos mal, como nos adverte Allan Kardec[13] em relação às palavras de Jesus. Salvo se considerarmos nossa razão infalível, neste caso, talvez, estejamos bem próximos de nos enquadrarmos na fala do Mestre lionês[14]:
“O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro”.
Albucacys de Paula
27/04/2024
Publicado na Revista Internacional de Espiritismo de outubro/2024 - Capa da Revista
[1] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, Introdução, item I.
[2] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, Conclusão, item IX.
[3] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 138.
[4] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 139.
[5] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 153.
[6] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 480.
[7] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 764.
[8] Kardec, Allan – O Livro dos Médiuns, cap. XXIV, item 267, princípio 9º.
[9] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 115.
[10] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 132.
[11] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 258.
[12] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q.13.
[13] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, q. 131
[14] Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, Introdução, item VII.